29 Janeiro, 2010

Propaganda e Iconografia Republicanas


Lisboa, 28 de Janeiro, 18:00 horas, na Sala do Arquivo dos Paços do concelho da Câmara Municipal de Lisboa, colóquio (charla), proferido pelo Doutor António Pedro Vicente sobre o lema “Propaganda e Iconografia Republicanas”, organização conjunta da Fundação Mário Soares e da Câmara Municipal de Lisboa.
Foi o primeiro de 18 colóquios, a realizar nas últimas quintas-feiras de cada mês, integrados no programa de comemorações do I Centenário da Implementação da República, organizado pela Fundação Mário Soares e Câmara Municipal de Lisboa.
Do colóquio de ontem ressaltou a imagem de um Portugal, em 1910, esmagadoramente analfabeto, motivando a utilização intensiva da iconografia, da caricatura, da frase certeira como veículos propagandísticos de grande circulação, acessíveis e legíveis por todos os públicos.
Com efeito, a propaganda republicana recorreu, em grande escala, à utilização de todos os suportes materiais, possíveis e imaginários, para transmitir os ideais, os valores e as políticas republicanas.
Sobre o conferencista, o Professor Doutor António Pedro Vicente, importa referir que ao longos de muitas décadas da sua vida se dedicou, militantemente, a pesquisar, comprar e coleccionar, de forma criteriosa e sistemática, uma colecção iconográfica sobre a República.
O Colóquio partiu precisamente dessa extraordinária colecção, que se estende das últimas décadas do séc. XIX até ao período da Ditadura Militar, para demonstrar a diversidade de mensagens, “inputs”, utilizadas de forma heteróclita pela propaganda republicana na difusão do seu imaginário e dos seus manifestos.
A referida colecção encontra-se, actualmente, integrada no património da Fundação Mário Soares, instituição que vem desenvolvendo um extraordinário trabalho de defesa da memória histórica do Portugal Contemporâneo.

05 Janeiro, 2010

Final de Dezembro, em Viseu



A Exposição encerrou no domingo.Tive a oportunidade de a visitar na última semana de exibição.Para os que não a puderam visitar resta o excelente catálogo, disponível na loja do Museu Grão-Vasco.
A exposição pretendia ilustrar a identidade de Portugal, no período da fundação e consolidação, disponibilizando um espólio representativo e contextualizante do período dos alvores da nacionalidade nas vertentes do poder, da religião e da produção artística.

Juntamente com as peças expostas, de grande qualidade estética e validade histórica do pensamento estético medieval, associaram-se outras, de épocas posteriores, que iconograficamente, evocam acontecimentos e figuras marcantes desse período histórico.
De entre elas distingue-se a "espada" pretensamente propriedade de D. Afonso Henriques, objecto que, intencionalmente, se distinguia do restante espólio exposto, remetendo-nos para a controvérsia acerca do local de nascimento do rei fundador da nossa nacionalidade.Viseu ou Guimarães?

Soneto
Chego (Cidade insigne) a contemplar-te
Viseu de cinco seculos memorados
que em tanto já florente, já prostrada,
teatro foste de Minerva, e Marte.
Não poderá a fortuna aniquilar-te,
pois sendo tantas vezes assolada
(qual Fenix entre as chamas abrasada.)
tornas das mesmas a levantar-te.
Eternize a estampa teu retrato,
do Letes apesar teu sevo imigo
mas tambem se oponha o tempo ingrato.
És gloria, de Lusos, de Arabes castigo,
Seta de Afonso, triunfo de Veriato,
berço a Eduardo, marmore a Rodrigo.

in, Agiologico Lusitano, de Jorge Cardoso

23 Dezembro, 2009

Mestre Ferreira da Silva


(Foto:Margarida Araújo)

Conheço o Mestre Ferreira da Silva há “muito pouco tempo”, cerca de quinze anos. Conheci-o graças aos bons ofícios e à amizade comum que nos une ao Dr. João Serra e ao Carlos Mota, os quais, em boa hora, partilharam comigo o “tesouro” humano e artístico que é o Mestre FS.
No passado sábado tivemos a oportunidade de podermos testemunhar a importância do Ferreira, da sua obra, das suas intervenções artísticas e da sua cidadania para com o concelho das Caldas da Rainha. Aí tive a oportunidade de referir que só um “espírito distraído” não repara nas marcas Ferreira da Silva que se encontram disseminadas por toda a cidade.Com efeito, Mestre FS, de forma genuína e generosa, foi pontuando a cidade com reflexos de luz e cor que vão iluminando um espaço urbano marcado pelo crescimento desconectado e desprovido de sentido estético. Não fora as réstias de luz e de alma artística criadas pela obra de Ferreira da Silva e a cidade seria mais lúgubre e mais dramática. Os “oásis Ferreira da Silva” contemplados no CENCAL, na Fonte Luminosa dos Arneiros, junto à Escola Secundária Raul Proença, no átrio da CMunicipal, junto ao Museu do Hospital das Caldas, nas “paredes de loiça” de muitos prédios urbanos das Caldas, constituem um Património artístico que se assume como um dos poucos contributos constituídos como Memória Patrimonial que a nossa geração legará ao futuro. O Ferreira é uma força da natureza, pura e musculada, polissémica e complexa, vernacular e erudita, exposta nos espaços públicos da cidade das Caldas da Rainha.
Das poucas decisões inteligentes e estratégicas tomadas pelo poder local nos últimos anos ressalta, sem dúvida, a decisão e o imperativo de assumir a produção e laboração artísticas do Mestre Ferreira da Silva, enquanto criação e Património de interesse Nacional. A Câmara ao assumir o legado FS desencadeou o desenvolvimento de um Projecto dinamizador de sinergias criativas, capazes de estimularem a comemoração e consagração da obra do mestre, como legado artístico e patrimonial brilhante e respeitador de uma tradição contaminada pela qualidade estética e elevado nível artístico, nascida no século XIX, consagrada por RBPinheiro e reafirmada por Ferreira da Silva. Importa não parar, não ficar pela evocação, manter vivo o projecto articulado de criação do atelier/museu Ferreira da Silva, intencionado pelo Presidente da CMCaldas, planeado e projectado pelo Dr. João Serra, estudioso informado e cúmplice da obra e vida do Mestre Ferreira da Silva, clarividente Comissário Científico da Festa da Cerâmica caldense.
Mantenho uma relação de grande cumplicidade com Mestre Ferreira da Silva, em conversas, desabafos, projectos, informação, troca de experiências.Com ele aprendo matérias que não constam dos manuais de arte, com ele aprendi que a terra, o fogo, a água e o ar são elementos estéticos alquímicos que possibilitam alpendurar formas aos desejos da ordem natural das “coisas” da vida.

16 Dezembro, 2009

Oscar Niemeyer - 102 anos -Parabéns





"Não é o ângulo reto que me atrai,
nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual,
a curva que encontro nas montanhas do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
o universo curvo de Einstein."

— Oscar Niemeyer-

23 Novembro, 2009

A "Última" Exposição de Pedro Lapa no MNAC

.....DE AMADEO A PAULA REGO ARTE MODERNA EM PORTUGAL

Visita ao Museu do Chiado, no dia 31 de Outubro, na semana em que se soube que Pedro Lapa vai abandonar as funções de Director do MNAC/Chiado.
Não me vou pronunciar sobre o processo de escolha da nova directora, em desfavor da gestão de Pedro Lapa, por desconhecimento do processo concursal, no entanto, parece-me que o momento da mudança do modelo de gestão para o MNAC/Chiado, poderá vir a originar situações entrópicas para a necessária afirmação do Museu. Desde logo, o facto de estarmos em vésperas do inicio da intervenção/alteração do projecto museológico do Museu do Chiado, a qual se traduzirá pela ampliação da sua área museológica;depois, parece-me, que o Museu Nacional de Arte Contemporânea/Chiado deverá assumir-se como um Museu de Arte Contemporânea Nacional, complementar ao Museu Nacional de Arte Antiga, e não sofrer de qualquer tipo de complexo, nomeadamente, em relação ao Centro de Arte Moderna da FCG; Por último, em vésperas do ano de todas as comemorações do Centenário da Implementação da República, não se conhece o programa de realizações a cargo do MNAC para evocar e comemorar o evento, sendo que este Museu deveria assumir um papel de grande relevância na programação cultural portuguesa de 2010, pelas razões que todos conhecemos.Deverá ser o Museu do Ano, no que à República diz respeito.
Deixo o texto de Pedro Lapa de apresentação da Exposição visitada.

ARTE MODERNA EM PORTUGAL: DE AMADEO A PAULA REGO ARTE MODERNA EM PORTUGAL

Esta exposição traça um percurso pelas práticas artísticas da primeira metade do século XX, em Portugal, e apresenta a sua lenta e complexa modernização num contexto cultural e politicamente adverso. Quando as distâncias entre os países europeus iniciaram o seu processo de colapso e a circulação da informação se constituiu como parte triunfante do novo mundo, a arte moderna portuguesa desenvolveu-se por episódios singulares e amplas descontinuidades. A reacção a este contexto foi a emigração de alguns dos mais relevantes artistas para Paris: primeiro Amadeo de Souza-Cardoso, situação interrompida pela Grande Guerra e sua morte prematura; posteriormente o caso maior e definitivo de Maria Helena Vieira da Silva, a quem Salazar viria a retirar a própria nacionalidade.

As dinâmicas das vanguardas sobre o incipiente contexto moderno permitiram construir um conjunto significativo de experiências, quer no início do século, quer na transição da década de 40 para 50s, com a terceira geração modernista. Também pela primeira vez se apresentam os desenvolvimentos da prática fotográfica desenvolvidos neste período. Quase sempre marginalizados pela História da Arte surgem agora como uma participação plena e em diálogo com as outras práticas artísticas. É para esta época e reconfiguração da modernidade então operada, que esta exposição presta especial atenção. Foram de facto os Abstraccionistas, os Neo-realistas e os Surrealistas que produziram essa modernidade prometida por Amadeo de Souza-Cardoso, passada como testemunho por Almada Negreiros e que estes artistas deram corpo e conflitualidade. No seu limite Joaquim Rodrigo e Paula Rego abriram outros caminhos para novas ficções.

Pedro Lapa

Arte poética

Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos

de, João Maimona