
Reconhecer o nosso Património com arte e emotividade, como património maior da cultura europeia, tal como o fez Jean Marie Guilluêt no sábado nas Cortes, na Casa Museu João Soares, faz-nos bem ao ego e faz-nos sentir orgulhosos do nosso Património, ainda que nem sempre o mesmo seja bem tratado ou tenha o reconhecimento que merece.
Ninguém fica indiferente à grandiosidade estética do conjunto patrimonial e artístico do Mosteiro de Batalha, desde a sua Igreja, à sua tumulária, aos vitrais, claustros, capelas imperfeitas e, especialmente, ao seu portal principal, porta celestial de acesso ao conjunto artístico do mais belo livro português gravado em calcário existente no nosso território.
A lição de Jean Marie Guilluêt deveria ser registada exemplarmente nos anais da História da Arte Portuguesa, contraste afirmado com o tradicional discurso de auto-comiseração periférica que por vezes contagia a nossa historiografia. Como de costume, é necessário ouvirmos “alguém de fora” afirmar que se este Monumento fosse francês ele seria ao mesmo tempo a “Notre Dame de Paris”, Saint-Denis e o Panteão dos Inválidos. Surpreendente? Claro que não! Surpreendente é a habitual indiferença com que se olha para o nosso Património, desde o mais monumental até ao mais discreto.
Recompensador foi ouvir Jean Marie Guilluêt afirmar, taxativamente, que Santa Maria da Vitória é uma obra cosmopolita, obra do séc. XV, parte integrante dos movimentos da arte europeia da época, obra maior que pontua um movimento artístico e cultural iniciado em Brugges e pontilhado no circuito que percorre a França, Barcelona, Valência, Sevilha e a nossa Batalha.
Retemperador foi também confirmar a presença maior da arte de Mestre Huguet, catalão sem dúvida, no nosso monumento batalhino; Confirmar a ligação estreita e profunda entre a Arte e a Ideologia, a adesão ideológica da coroa portuguesa, na primeira metade do séc. XV, a Aragão e não a Castela, e nem tanto à Inglaterra como se dizia; ainda relembrar a acção fundamental e erudita dos dois filhos de D.João I, D. Duarte e D. Pedro, na definição de um modelo ideológico e político para a afirmação da matriz cultural portuguesa.
Através de uma metodologia demonstrativa comparativa Jean Marie Guilluêt colocou a escultura batalhina no seu devido lugar, no centro da Europa, na vanguarda da escultura europeia do séc. XV, numa das mais bonitas páginas dos anais da História da Arte Portuguesa e Europeia.
(imagens: http://www.pbase.com/diasdosreis/image/)
Na Mão De Deus
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero Quental

6 comentários:
Foi publicado o dicionário de História da Arte Medieval, de que o Doutor Jean é o Coordenador.
O interesse manifestado pela arte portuguesa é uma mais valia para Portugal.
Assisti à sua conferência em Coimbra. Foi muito boa mas pensei que trouxesse mais novidades.O que defende é pacífico, não trazendo nada de novo em relação em Huguet.
Bj, LC
às portas do céu passa uma estrada com muito tráfego e um barulho ensurdecedor....para quando a sua deslocalização?
Alberto
É mesmo um palácio encantado....
"refresh"
Conceição.
Caro Nico:
Foi bom voltar a ter notícias tuas, ainda por cima com o teu retorno à poesia pintada...
bjs
Dulce
fala da infância e de sonhos não realizado culpa-se e pede a deus piedade.
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