24 Fevereiro, 2009

Lagoa Henriques, 1923/2009



# Lagoa Henriques e a Procura Paciente #

"Nasci em Lisboa na Rua Ilha Terceira. Comecei por estudar na Escola de Belas-Artes de Lisboa e finalizei o curso na Escola do Porto.Com uma bolsa de estudo vivi durante três anos em Itália, onde tive excelentes mestres, entre os quais Marino Marini. Influenciado pela leitura de uma Viagem ao Egipto, de Heródoto, viajei pela Grécia e pelo Egipto. Fui assistente na disciplina de Desenho na Escola do Porto e depois na de Lisboa, onde também leccionei a disciplina de Comunicação Visual e onde incuti aos alunos o hábito de usarem o Diário Gráfico. Fiz programas de televisão. Gosto, como sempre fiz, de viajar, de desenhar no meu Diário Gráfico, de fotografar e cada vez mais de escrever. Continuo a tentar “decifrar o enigma do Universo”.

“O Diário Gráfico é qualquer coisa que nós, na medida do possível, escrevemos todos os dias sobre a realidade que nos cerca. É o risco inadiável em que o desenho é realmente prioritária, mas a palavra também aparece, porque tanto o desenho como a palavra escrita são caligrafias. O Diário Gráfico acontece, não deve ser uma obrigação, deve ser uma necessidade, deve ser qualquer coisa que faz parte da nossa própria existência. E acontece sempre, digamos, desde que o Homem existe.
…./…
Já se sabe que, do ponto de vista didáctico ou pedagógico, eu tive aquele privilégio de sugerir o Diário aos meus alunos de Desenho. E naquela cadeira que eu criei depois da revolução dos cravos, do 25 de Abri – Comunicação Visual, aí sim, eu achei que era prioritário comunicar visualmente, e fundamentalmente através da imagem, o que cada um dos jovens achava que era mais importante, no decorrer da sua existência, no dia-a-dia. E assim aconteceram Diários Gráficos notáveis.
…/…
Tive um grande mestre de Diários Gráficos que foi um pintor-escultor e arquitecto. De manhã frequentava o seu atelier de pintura-escultura e à tarde ia para o atelier de arquitectura. Estou a referir-me a um homem notável, um dos grandes mestres da arquitectura moderna, o Le Corbusier.
Nasce na Suíça, filho de um relojoeiro, apaixona-se pelo desenho, vai para Paris fazer um curso de Arquitectura, matricula-se, assiste às primeiras aulas e chega à conclusão de que ali não ia aprender nada e resolve “dar a volta ao mundo”, e leva consigo os tais cadernos onde vai escrever o seu diário que tem o nome muito expressivo: “Os Cadernos de Procura Paciente”. Se assistisse a esta conversa, Picasso diria “Ò Corbusier, atenção, eu não procuro, encontro.” E o Diário Gráfico é realmente um encontro permanente. Eu citei aqui o Le Corbusier, mas muitos artistas, em várias épocas, em várias situações, mesmo o próprio Picasso, têm Diários Gráficos notáveis.
É um fascínio……”

Lagoa Henriques, in Diários de Viagem – desenhos do quotidiano, pp. 142/143, coord. De Eduardo Salavisa, Quimera, 2008
Mais informação ver www.lagoahenriques.com
#
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isso;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Poemas de Fernando Pessoa, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, pp. 73/73, Visão/JL, 2006

23 Fevereiro, 2009

Criptopórtico do Forum de Aeminium



Regresso ao Museu Machado de Castro para visitar o Criptopórtico, único núcleo museológico aberto ao público neste Museu, em virtude das obras de remodelação e requalificação em curso. Espera-se que no final do corrente ano possam ser visitadas os restantes núcleos.
O Museu Machado de Castro foi o “meu primeiro museu”, local onde passei muitas tardes de aprendizagem e de contacto com o Património, tardes passadas a frequentar ateliers de cerâmica, pintura e tecelagem. Durante os primeiros anos de liceu grande parte da minha formação, no âmbito da disciplina de Trabalhos Manuais, foi feita no último piso do “Machado de Castro”, com liberdade para perambular pelos corredores repletos de escultura, paramentaria e pintura. É verdade que o gosto se educa, como se comprova pelo fruto resultante da cumplicidade estabelecida com as colecções do Museu, numa idade de abertura à aprendizagem e às culturas da arte e do Património.
Na altura não podíamos visitar o Criptopórtico, ainda não totalmente escavado, nem suficientemente estudado. Corriam as histórias de tesouros escondidos nos sombrios corredores, esculturas encontradas nas paredes e demais objectos que a nossa imaginação tratava de transformar em arcas de moedas de ouro, ou em aventuras inspiradas na série televisiva de culto juvenil na época que dava pelo nome de “Os Pequenos Vagabundos”. Anos mais tarde, já aluno na Faculdade de Letras, ali mesmo ao lado, haveria de descer ao Criptopórtico, comprovando a veracidade das histórias que se contavam na idade juvenil, a magia das suas galerias e os excelentes retratos escultóricos podiam ser agora contemplados e fruídos em todas as suas dimensões.
Em 2009 é possível visitar um circuito museológico independente do resto do museu ainda em obras, aberto e bem delineado, alargado à totalidade dos espaços descobertos e devidamente explicado, pondo assim em evidência aquele que é um dos mais belos e originais criptopórticos do mundo romano.
O aproveitamento deste cenário para exposição de algumas peças de escultura, belos retratos escultóricos, importantes retratos para o conhecimento de Aeminium.
O percurso é mágico, porquanto se deseja que o visitante o sinta especialmente como pura expressão arquitectónica de uma dimensão de sustentabilidade estrutural do “criptoforum” romano de Aeminium.

Breve Cronologia dos trabalhos arqueológicos
1929 – Início dos trabalhos arqueológicos no Criptopórtico, encetados pelo Prof. Vergílio Correia;
1971 – Conclusão dos trabalhos de arqueologia e restauro do Piso -1 e sua integração no circuito de visita ao Museu.
2009 – Inauguração da requalificação dos pisos inferiores do Museu Machado de Castro, estruturas das fundações do fórum romano de Aeminium.

O Criptopórtico é um conjunto de galerias abobadadas que constituem uma gigantesca estrutura que possibilitou a edificação do fórum claudiano na civitates de Aeminium, num ponto médio do acentuado declive da colina. Destruído o Império romano o fórum desapareceu, mas não o criptoportico que se manteve em uso ao longo dos tempos, até à Idade Média. Razões de segurança ou outras conduziram ao seu entulhamento e ao seu esquecimento.

Poemas de mármore. Michelangelo escultor e poeta nas Lezioni de Benedetto Varchi*
“Já não me parece mais, Bettini, fora de lugar
quando leio que o homem se apaixona pelos mármores
depois que vi a obscura Noite e a Aurora resplendente do grande escultor
divino engenho e mão mais erudita das outras
deu o Céu, mais generoso que nunca, conjuntos num só homem,
como para que a sorte não seja inferior à Natureza."

*Luciano Migliaccio Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Universidade de São Paulo

16 Fevereiro, 2009

Malangatana



Malangatana Valente em Coimbra

Dia 7 de Fevereiro, tarde de sábado passada em Coimbra, oportunidade para assistir à exposição de pintura e gravura de Malangatana, em Coimbra, no âmbito da homenagem a Eduardo Chivambo Mondlane – Pastor de Manjacaze, a qual contou com a presença do Embaixador de Moçambique e da filha de Malangatana.
Regresso a uma exposição de Malangatana, muitos anos depois da exposição da Cultural Gest em Lisboa. A mesma profundidade social e política, a habitual polivalência criativa e o manifesto de orgulho pela sua origem moçambicana e africana, proclamada com alegria cor e patriotismo.

Liberdade e paz.
Malangatana Valente Ngwenya nasceu em Matalana, distrito de Marracuene, Moçambique, a 6 de Junho de 1936.
A partir de 1959 dedicou-se exclusivamente à causa da arte (pintor, escultor, ceramista), com o apoio de Augusto Cabral e do arquitecto Miranda Guedes (Pancho), que lhe cedeu uma garagem para servir de atelier, e possibilitou a sua afirmação artística apoiada na aquisição mensal de dois quadros.
Organizou a sua primeira exposição individual em Lourenço Marques, em 1961, na Associação dos Organismos Económicos.
Artista militante, juntou-se à rede clandestina da FRELIMO, logo no início da luta armada em Moçambique, sendo considerado pela PIDE como um dos mais importantes criadores de propaganda pró-Frelimo, tendo sido preso por duas vezes.
A sua arte manifesta-se em preocupações de carácter social, projectando-se nos meios artísticos nacionais, de que decorre a atribuição de uma bolsa, em 1971, por parte da Fundação Calouste Gulbenkian, trazendo-o para Lisboa, onde se especializa em gravura e em Cerâmica (Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego).
Com a independência de Moçambique envolve-se directamente na vida política do seu país, participando em diversas acções de dinamização cultural e alfabetização.
Foi um dos criadores do Movimento para a Paz, do Museu Nacional de Arte de Moçambique e criador do Centro de Estudos Culturais, actual Escola Nacional de Artes Visuais. Criou ainda, entre muitas outras iniciativas, os núcleos dos artesãos das zonas verdes de Maputo.
Já em 1992, após o final da guerra civil moçambicana, dinamiza o projecto cultural na sua aldeia de Matalana, de que resultou a Associação do Centro Cultural de Matalana, da qual é o actual presidente.
A sua polivalência artística, pintor, ceramista, cantor, actor, dançarino, fazem de Malangatana a personalidade artística e cultural mais identificada com a nação moçambicana.
Irmãos
Há batuques no silêncio da noite
Que não se ouvem
São da cor da palmatória
Mas não se ouvem
E a palmatória
Ouve-se sempre
E é por isso que temos de silenciá-la
Com a força maior que a dor
E vamos irmãos
Vamos, porque a palmatória
Silencia o meu batuque

Malangatana
23.06.69

09 Fevereiro, 2009

O Colosso

O “Colosso” não foi pintado por Goya
Como há muito se suspeitava a obra “O Colosso”, atribuído a Francisco de Goya, em exposição no Museu do Prado, não foi pintada pelo grande mestre espanhol. Terá sido pintada por um dos seus discípulos, segundo informação veiculada pelo próprio Museu.
O famoso quadro, que mostra uma figura masculina imponente e dominadora diante de uma paisagem cheia de pessoas e animais, está dotado de uma técnica mais pobre do que a de Goya, podendo mesmo ser atribuída a dos seus aprendizes de nome Asensio Julia, segundo declarações de Manuela Mena, responsável técnica do museu.
Como se sabe o museu do Prado tem uma extensa colecção de pinturas de Goya, pintor que viveu entre os anos de 1746 e 1828, e cujo trabalho, vanguardista para a época, é considerado como o ponto de partida da pintura contemporânea.
"O Colosso" encontra-se exposto no museu do Prado desde 1931, mas as dúvidas quanto à sua autoria começaram a surgir em 1992, quando o quadro foi limpo e restaurado. Acredita-se que a obra tenha sido pintada nos inícios do século 19, aquando das invasões francesas.
Uma pintura que ilustra a definição de guerra, com o mesmo impacto do que ressalta da pena de Padre António Vieira que a definiu assim :
"É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum, que, ou se não padeça, ou se não tema: nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro."

Padre António Vieira, Sermão Histórico e Panegírico

05 Fevereiro, 2009

Andrew Wyeth e Bucolismo

Andrew Newell Wyeth, nasceu na Pensilvânia (EUA), 12 de Julho de 1917 e faleceu, também na Pensilvânia, no passado dia 16 de Janeiro de 2009.
Pintor realista, muito estimado e apreciado nos EUA, ficou conhecido pelo seu percurso estético, sóbrio e construtivo, demonstrativo de paisagens reconhecíveis e identificáveis. O seu estilo remete-nos para a pintura realista dos finais do séc. XIX.
Conheci-o por acção do meu envolvimento no estudo da colecção de arte de José Relvas, quando, por curiosidade e aplicação dos estudos comparativos, me dediquei a investigar o realismo contemporâneo.
Apraz-me a melancolia e o bucolismo.

Águas que, penduradas desta altura,
Caís sobre os penedos descuidadas,
Aonde, em branca escuma levantadas,
Ofendidas mostrais mais fermosura,

Se achais essa dureza tão segura,
Para que porfiais, águas cansadas?
Hei tantos anos já desenganadas,
E esta rocha mais áspera e mais dura.

Voltai atrás por entre os arvoredos,

Aonde caminhais com liberdade
Até chegar ao fim tão desejado.

Mas ai! que são de amor estes segredos.
Que estes segredos.
Que vos não valerá própria vontade
Como a mim não valeu no meu cuidado.
(Francisco Lobo Rodrigues)

(Reprodução de dois quadros de Andrew Wyeth - Lanterna e Easterly )