


# Lagoa Henriques e a Procura Paciente #
"Nasci em Lisboa na Rua Ilha Terceira. Comecei por estudar na Escola de Belas-Artes de Lisboa e finalizei o curso na Escola do Porto.Com uma bolsa de estudo vivi durante três anos em Itália, onde tive excelentes mestres, entre os quais Marino Marini. Influenciado pela leitura de uma Viagem ao Egipto, de Heródoto, viajei pela Grécia e pelo Egipto. Fui assistente na disciplina de Desenho na Escola do Porto e depois na de Lisboa, onde também leccionei a disciplina de Comunicação Visual e onde incuti aos alunos o hábito de usarem o Diário Gráfico. Fiz programas de televisão. Gosto, como sempre fiz, de viajar, de desenhar no meu Diário Gráfico, de fotografar e cada vez mais de escrever. Continuo a tentar “decifrar o enigma do Universo”.
“O Diário Gráfico é qualquer coisa que nós, na medida do possível, escrevemos todos os dias sobre a realidade que nos cerca. É o risco inadiável em que o desenho é realmente prioritária, mas a palavra também aparece, porque tanto o desenho como a palavra escrita são caligrafias. O Diário Gráfico acontece, não deve ser uma obrigação, deve ser uma necessidade, deve ser qualquer coisa que faz parte da nossa própria existência. E acontece sempre, digamos, desde que o Homem existe.
…./…
Já se sabe que, do ponto de vista didáctico ou pedagógico, eu tive aquele privilégio de sugerir o Diário aos meus alunos de Desenho. E naquela cadeira que eu criei depois da revolução dos cravos, do 25 de Abri – Comunicação Visual, aí sim, eu achei que era prioritário comunicar visualmente, e fundamentalmente através da imagem, o que cada um dos jovens achava que era mais importante, no decorrer da sua existência, no dia-a-dia. E assim aconteceram Diários Gráficos notáveis.
…/…
Tive um grande mestre de Diários Gráficos que foi um pintor-escultor e arquitecto. De manhã frequentava o seu atelier de pintura-escultura e à tarde ia para o atelier de arquitectura. Estou a referir-me a um homem notável, um dos grandes mestres da arquitectura moderna, o Le Corbusier.
Nasce na Suíça, filho de um relojoeiro, apaixona-se pelo desenho, vai para Paris fazer um curso de Arquitectura, matricula-se, assiste às primeiras aulas e chega à conclusão de que ali não ia aprender nada e resolve “dar a volta ao mundo”, e leva consigo os tais cadernos onde vai escrever o seu diário que tem o nome muito expressivo: “Os Cadernos de Procura Paciente”. Se assistisse a esta conversa, Picasso diria “Ò Corbusier, atenção, eu não procuro, encontro.” E o Diário Gráfico é realmente um encontro permanente. Eu citei aqui o Le Corbusier, mas muitos artistas, em várias épocas, em várias situações, mesmo o próprio Picasso, têm Diários Gráficos notáveis.
É um fascínio……”
Lagoa Henriques, in Diários de Viagem – desenhos do quotidiano, pp. 142/143, coord. De Eduardo Salavisa, Quimera, 2008
“O Diário Gráfico é qualquer coisa que nós, na medida do possível, escrevemos todos os dias sobre a realidade que nos cerca. É o risco inadiável em que o desenho é realmente prioritária, mas a palavra também aparece, porque tanto o desenho como a palavra escrita são caligrafias. O Diário Gráfico acontece, não deve ser uma obrigação, deve ser uma necessidade, deve ser qualquer coisa que faz parte da nossa própria existência. E acontece sempre, digamos, desde que o Homem existe.
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Já se sabe que, do ponto de vista didáctico ou pedagógico, eu tive aquele privilégio de sugerir o Diário aos meus alunos de Desenho. E naquela cadeira que eu criei depois da revolução dos cravos, do 25 de Abri – Comunicação Visual, aí sim, eu achei que era prioritário comunicar visualmente, e fundamentalmente através da imagem, o que cada um dos jovens achava que era mais importante, no decorrer da sua existência, no dia-a-dia. E assim aconteceram Diários Gráficos notáveis.
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Tive um grande mestre de Diários Gráficos que foi um pintor-escultor e arquitecto. De manhã frequentava o seu atelier de pintura-escultura e à tarde ia para o atelier de arquitectura. Estou a referir-me a um homem notável, um dos grandes mestres da arquitectura moderna, o Le Corbusier.
Nasce na Suíça, filho de um relojoeiro, apaixona-se pelo desenho, vai para Paris fazer um curso de Arquitectura, matricula-se, assiste às primeiras aulas e chega à conclusão de que ali não ia aprender nada e resolve “dar a volta ao mundo”, e leva consigo os tais cadernos onde vai escrever o seu diário que tem o nome muito expressivo: “Os Cadernos de Procura Paciente”. Se assistisse a esta conversa, Picasso diria “Ò Corbusier, atenção, eu não procuro, encontro.” E o Diário Gráfico é realmente um encontro permanente. Eu citei aqui o Le Corbusier, mas muitos artistas, em várias épocas, em várias situações, mesmo o próprio Picasso, têm Diários Gráficos notáveis.
É um fascínio……”
Lagoa Henriques, in Diários de Viagem – desenhos do quotidiano, pp. 142/143, coord. De Eduardo Salavisa, Quimera, 2008
Mais informação ver www.lagoahenriques.com
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A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isso;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
Poemas de Fernando Pessoa, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, pp. 73/73, Visão/JL, 2006
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isso;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
Poemas de Fernando Pessoa, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, pp. 73/73, Visão/JL, 2006


Regresso ao Museu Machado de Castro para visitar o Criptopórtico, único núcleo museológico aberto ao público neste Museu, em virtude das obras de remodelação e requalificação em curso. Espera-se que no final do corrente ano possam ser visitadas os restantes núcleos.


(Reprodução de dois quadros de Andrew Wyeth - Lanterna e Easterly )