24 Março, 2009

NADIR AFONSO


Galerias da Assembleia da República, espaço de ligação entre o hall principal e o acesso nascente, local de passagem escolhido para servir de galeria à exposição de duas dezenas de obras de pintura de Nadir Afonso “ As Cidades No Homem”. A excelente ideia de se homenagear Nadir Afonso na "Casa de todos os Portugueses” esmorece no percurso expositivo seleccionado para apresentar os excelentes quadros do Mestre flaviense. Com efeito, o espaço seleccionado para funcionar como galeria não se coaduna com a qualidade estética das obras apresentadas, especialmente nos dias úteis de funcionamento da Assembleia da República, não só porque se trata de um espaço de passagem, muito frequentado, mas também por ser um dos pontos de encontro de deputados, funcionários e visitantes, existentes no Parlamento português, o que, por si só, impossibilita uma atenta e concentrada visita e fruição às pinturas de Nadir Afonso apresentadas.Além da perturbação permanente também os serviços de acompanhamento e guia disponibilizados para o local estão muito longe da prestação de apoio necessário à compreensão da obra e conhecimento da vida do artista. Com efeito, o guia que nos acompanhou limitou-se apenas a cumprir os trâmites de segurança no acesso à exposição ao numeroso grupo que se encontrava para visitar a belissima exposição. É caso para se dizer que, em relação à exposição, nada disse, e em relação ao artista nada referiu.
A fórmula encontrada para apresentar o percurso expositivo não resulta, faltando-lhe privacidade, legibilidade e a vertente didáctica de uns serviços educativos (Fundação Nadir Afonso), atentos e disponíveis para acompanharem os visitantes interessados.Quanto à qualidade da obra exposta uma só palavra, excelente: Traços de cidades iluminadas de cromatismos vivos e oníricos, cidades no Homem e o Homem “pintor” de cidades. Nadir Afonso afasta-se, teoricamente, dos pensamentos idealista e materialista, valorizando afectivamente a sua dimensão inter-relacional, a qual coincide “com as condições de existência que precedem e explicitam o objecto artístico”.
Num futuro, que esperamos e ansiamos que seja breve, Nadir Afonso terá, na sua cidade natal, a flaviana cidade de Chaves, a sua “casa de permanência”, desenhada pelo mestre escultor arquitecto Siza Vieira, materializando-se, desse modo, o seu sonho de perpetuar a obra do Homem na Cidade.


Breve Biografia


1929 – Nasceu em Chaves
1938 – Inicio da frequência do Curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes do Porto.
1946 – partida para Paris, para estudar pintura na École dês Beaux-Arts;
1948 – Início da sua colaboração com Le Corbusier;
1951 – Início da sua colaboração, no Brasil, com Óscar Niemayer;
1954 – Regresso a Paris, participando activamente no desenvolvimento do cinetismo;
1959 – Realiza a sua primeira grande exposição antológica, na Maison dês Beaux-Arts de Paris;
1965 – Abandona a Arquitectura;
1967 – Recebe o prémio Nacional de Pintura;
1969 – Vence o prémio Amadeo de Souza-Cardoso;
1970 – Exposição retrospectiva em Paris, organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian;, posteriormente esta Exposição é apresentada também em Lisboa



CIDADE
Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.


Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.


Sofia de Mello Breyner,
1944


18 Março, 2009

ISABEL CARLOS

Conheci-a em Coimbra, nos finais dos anos setenta. Partilhámos percursos, tertúlias e amigos. Desde o Moçambique, ao Tropical, ao “Rápo-Táxo”, ao TEUC e outras cumplicidades, nomeadamente com o Cinema, a Psicologia, a Filosofia, já a Isabel, então estudante de Filosofia, irradiava inteligência, sensibilidade e irrequietude. Ontem, como hoje, o seu percurso ilustra a sua personalidade, contemporânea, artística e sensível.
Depois de Veneza, Sidney, Sharjah, segue-se a Fundação Calouste Gulbenkian.Parabéns e Felicidades, são votos que ficam bem e são mais que merecidos.
Ontem, como hoje, atento, solidário e admirador.


“Portuguese-born curator Isabel Carlos brings over 20 years experience to the 2009 Sharjah Biennial. After taking her degree in Philosophy at the Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, she gained a Masters qualification in Social Communication, with a thesis on performance art from the Universidade Nova de Lisboa.
Isabel served as Head Advisor to the Lisbon Exhibitions Department, during the city’s 1994 European Capital of Culture programme, before founding the Instituto de Arte Contemporanea in 1996, where she served as Deputy Director for five years. During this time, she organized the Portuguese delegations to the Venice, Istanbul, London and Sao Paulo Biennials, as well as curating the IAC’s international art collection.
Since leaving the IAC, after three years, Isabel Carlos has curated over twenty major exhibitions worldwide, working with group and solo shows, in and around Europe and further afield in the US and India. She has had many critical works published, including titles on Portuguese artists Helen Almeida and Alberto Carneiro, as well as theoretical essays in ‘On Reason And Emotion’ as artistic director and curator of Sydney Biennial (2004). She is also a respected international speaker and has participated in art conferences and discussion panels around the world.
For her role at the Sharjah Biennial 2009, Isabel Carlos is aiming to highlight themes relating to consumerism, urban growth and the politics of human happiness and aspirations. ‘The pursuit of happiness is an important motivation for humanity to dislocate itself from one place to another,’ she says. ‘In this dislocation, notions of utopia and future play a major role. This is a time in which the 9th Sharjah Biennial aims to propose a pause for reflection and provision storage for the future. Constructing the future depends on the sedimentation of the past and the present and art is a particularly clear case to which this principle applies."

http://www.sharjahbiennial.org/en/

09 Março, 2009

Santa Maria da Vitória



Reconhecer o nosso Património com arte e emotividade, como património maior da cultura europeia, tal como o fez Jean Marie Guilluêt no sábado nas Cortes, na Casa Museu João Soares, faz-nos bem ao ego e faz-nos sentir orgulhosos do nosso Património, ainda que nem sempre o mesmo seja bem tratado ou tenha o reconhecimento que merece.
Ninguém fica indiferente à grandiosidade estética do conjunto patrimonial e artístico do Mosteiro de Batalha, desde a sua Igreja, à sua tumulária, aos vitrais, claustros, capelas imperfeitas e, especialmente, ao seu portal principal, porta celestial de acesso ao conjunto artístico do mais belo livro português gravado em calcário existente no nosso território.
A lição de Jean Marie Guilluêt deveria ser registada exemplarmente nos anais da História da Arte Portuguesa, contraste afirmado com o tradicional discurso de auto-comiseração periférica que por vezes contagia a nossa historiografia. Como de costume, é necessário ouvirmos “alguém de fora” afirmar que se este Monumento fosse francês ele seria ao mesmo tempo a “Notre Dame de Paris”, Saint-Denis e o Panteão dos Inválidos. Surpreendente? Claro que não! Surpreendente é a habitual indiferença com que se olha para o nosso Património, desde o mais monumental até ao mais discreto.
Recompensador foi ouvir Jean Marie Guilluêt afirmar, taxativamente, que Santa Maria da Vitória é uma obra cosmopolita, obra do séc. XV, parte integrante dos movimentos da arte europeia da época, obra maior que pontua um movimento artístico e cultural iniciado em Brugges e pontilhado no circuito que percorre a França, Barcelona, Valência, Sevilha e a nossa Batalha.
Retemperador foi também confirmar a presença maior da arte de Mestre Huguet, catalão sem dúvida, no nosso monumento batalhino; Confirmar a ligação estreita e profunda entre a Arte e a Ideologia, a adesão ideológica da coroa portuguesa, na primeira metade do séc. XV, a Aragão e não a Castela, e nem tanto à Inglaterra como se dizia; ainda relembrar a acção fundamental e erudita dos dois filhos de D.João I, D. Duarte e D. Pedro, na definição de um modelo ideológico e político para a afirmação da matriz cultural portuguesa.
Através de uma metodologia demonstrativa comparativa Jean Marie Guilluêt colocou a escultura batalhina no seu devido lugar, no centro da Europa, na vanguarda da escultura europeia do séc. XV, numa das mais bonitas páginas dos anais da História da Arte Portuguesa e Europeia.


(imagens: http://www.pbase.com/diasdosreis/image/)


Na Mão De Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero Quental